Terça-feira, 01.02.11

Trocando a dívida pública e o FMI por miúdos

 

Muita tinta tem corrido a respeito da eventual intervenção do FMI no país. Eu, convencido que estou de que esta, quando acontecer, só vai pecar por ser tardia, arrisco-me a aventar uma simplificação sob a forma de analogia. Corrija-me, por favor, algum economista que por aqui passe.

 

Imagine o caro leitor ou a cara leitora que tem uma empresa. Por alguma razão, a empresa encontra-se com problemas de produtividade e de liquidez. Como qualquer empresário, a sua principal preocupação em termos de despesas prende-se com o pagamento de salários e de despesas de funcionamento da infraestrutura. Além do mais, já contraiu diversos empréstimos. Contudo, para garantir que a empresa continue a funcionar, necessita de mais financiamento. Tem duas alternativas:

 

a) ignorando os problemas de produtividade, apenas para garantir o pagamento de despesas de funcionamento, todas as semanas tenta obter um pequeno empréstimo junto do banco, que o concede ou rejeita consoante a avaliação do risco dos mesmos. À medida que as semanas passam, enquanto não chega a uma altura em que o risco se torna demasiado elevado para o banco lhe conceder qualquer empréstimo, os juros vão-se tornando cada vez mais elevados de empréstimo para empréstimo.

 

b) procurando minorar a questão da produtividade, elabora em conjunto com o banco um plano de reestruturação da empresa, tendo em vista adaptar-se às diversas variáveis e condicionantes de mercado, diminuir despesas superflúas e aumentar a produtividade e, consequentemente, as receitas e a liquidez. Para suportar este plano e garantir as despesas de funcionamento até o mesmo ter efeitos práticos, o banco concede-lhe um empréstimo bastante mais significativo do que os da hipótese anterior, permitindo-lhe ter uma liquidez mais elevada e a médio-longo prazo, a uma taxa de juro menor do que na hipótese anterior.

 

Qual das duas prefere?

Samuel de Paiva Pires às 22:58 | link do post | comentar | ver comentários (3)
Quinta-feira, 13.01.11

À atenção dos socráticos "cainesianos" adoradores de Krugman

No The Conscience of a Liberal, esse mesmo, Paul Krugman:

 

I’m with Calculated Risk here: it says something about the sheer desperation of the European situation that Portugal’s ability to sell 10-year bonds at an interest rate of “only” 6.7 percent is considered a success. If you think about the debt dynamics here — the burden of growing interest payments on an economy that is likely to face years of grinding debt deflation — an interest rate that high is little short of ruinous. But it is, indeed, not as bad as people were expecting last week; hence, success.

A few more successes and the European periphery will be destroyed.

 

Leitura complementar: A culpa é nossa, de Carlos Abreu Amorim (Blasfémias)

Samuel de Paiva Pires às 00:14 | link do post | comentar
Domingo, 09.01.11

António Barreto sobre o FMI

A ler aqui:

 

No discurso do 10 de Junho de 2009, antes das legislativas, deixou uma série de avisos ao poder político. Desde aí, o País caiu num pântano?


Acho que sim, e não sou o único a dizê-lo. Se as autoridades políticas portuguesas há um ano tivessem tomado algumas medidas importantes, preventivas da crise, hoje não teríamos metade dos problemas que temos. Se Portugal tivesse feito o que devia, ou mesmo se tivesse pedido, há dois anos, apoio à União Europeia ou ao FMI... eu não percebo esta verdadeira obsessão contra o FMI.

 

O FMI é Deus ou o Diabo? Ajudar-nos-á ou levará o País para um problema maior?

Para um problema maior não leva de certeza. É bom dizer que nós pertencemos ao FMI. Tem-se a impressão de que o FMI é uma entidade exterior, tipo KGB ou Gestapo, que vem aí dar cabo de tudo. O FMI também tem interesse que daqui a cinco anos possa reaver os empréstimos feitos.

Samuel de Paiva Pires às 13:23 | link do post | comentar
Terça-feira, 09.11.10

Socialistas, escolham: bloco central, FMI ou o regime

 

Este é, sem dúvida, o regime que se bloqueou a ele próprio. Já aqui escrevi sobre a caminhada para a servidão que efectuámos ao longo dos últimos 36 anos. Nos últimos meses, temos vindo a assistir a diversas atitudes que bloquearam o regime, tornando o país seu refém. Escrevi, também recentemente, um texto badalado, sobre como nos tornámos medricas. Não apenas a sociedade, os cidadãos comuns em geral, mas os próprios políticos.

 

Em traços gerais, neste momento o país está refém de umas eleições presidenciais, das quais o actual residente de Belém sairá, com certeza, vencedor. O mesmo que, nos últimos meses, não teve coragem para terminar a desastrosa governação "Socratista" e tomar as rédeas do país - o eleitoralismo falou mais alto, disfarçado sobre a fachada do PR "moderador", a fazer lembrar o "viver habitualmente" de outros tempos. Junte-se a Cavaco, o principal protagonista da última oportunidade que houve para tal: o chumbo ao Orçamento. Neste plano, aqui escrevi em carta aberta a Pedro Passos Coelho aquilo que considerei que tinha de ser feito pelo país.

 

Escrevi, nesta carta, que um dos valores que está na base do funcionamento dos mercados é o da credibilidade. Independentemente do Orçamento Geral do Estado aprovado (e aquele que o foi é, sem dúvida, muito mau, destinando-se apenas a protelar uma situação insustentável), os credores, que são muito mais racionais que a esmagadora maioria dos portugueses, justificadamente não têm qualquer confiança em José Sócrates. O Primeiro-Ministro não tem qualquer credibilidade, e num sistema político fechado sobre si próprio, bloqueado, constitui-se como o principal problema, e não como uma solução. Por isto mesmo, chegámos a uma triste situação em que  a intervenção do FMI parece ser uma das poucas soluções. Não é que não tenhamos indivíduos à altura para resolver os nossos problemas. Mas estão praticamente arredados dos centros de decisão, estando o próprio sistema numa espiral de degenerescência acentuada, num ambiente, como há uns meses escreveu o Professor José Adelino Maltez, "propício ao neofeudalismo da cunha e do clientelismo, marcado pelo concentracionarismo que é rolo tão unidimensionalizador no capitalismo quanto o era no sovietismo, quando vem de cima para baixo".

 

O que se tem passado nos últimos dias, é prova disto mesmo e de como as tentativas socialistas de compreender ou domar os mercados não passam de mero wishful thinking, especialmente confrangedor e humilhante para o país quando verbalizado pelo seu principal (ir)responsável, José Sócrates ou companheiros de viagem dentro e fora do Parlamento, bastante apegados aos seus lugares que a alternância tem garantido.


Por isto mesmo, triste e infelizmente, chegámos a uma situação em que me parece que apenas uma intervenção externa pode viabilizar economicamente o país, provocando profundas reformas estruturais num sentido liberal, que nos permitam ter um modelo de desenvolvimento sustentável. Essa mesma intervenção acabará, posteriormente, por credibilizar o país externamente.

 

Contudo, nesta carta, escrevi também o seguinte: Porém, especulemos que o OE é aprovado e as medidas anunciadas são tomadas. Continuaremos numa senda despesista, financiando o nosso défice com empréstimos a juros elevadíssimos, e não teremos quaisquer alterações de natureza estrutural no aparelho do Estado - dou de bandeja que, obviamente, não é num só Orçamento que se vai fazer o trabalho que vários deveriam fazer, quanto às necessárias reformas estruturais. Será, no fundo, uma fuga para a frente, em que o risco de Portugal sofrer uma intervenção por parte do FMI não será minorado e poderá, inclusivamente, ser aumentado.

 

E eis que chegámos ao dia em que se ultrapassou o limite de taxas de juro da dívida a 10 anos definido por Teixeira dos Santos para recorrer ao FMI. Limite psicológico cuja formulação, obviamente, foi um erro. Mas vários são os economistas que têm dito que ultrapassado este limite, o país torna-se completamente insustentável (se não o era já), inviável e é preciso agir rapidamente. Como Cavaco não teve coragem para evitar isto, como Passos Coelho também não fez o que deveria ter sido feito - para gáudio de uns que preferem o "viver habitualmente", e de outros que politiqueiramente queriam a penalização de Sócrates, para que provasse o seu veneno até ao fim e, portanto, se mantivesse no Governo com um OE aprovado, parecendo preferir esta situação em que mais do que o PM, é o país que está cada vez mais em jogo -, com os limites constitucionais à dissolução da AR neste momento de pré-eleições presidenciais, chegámos a uma altura em que as soluções me parecem ser apenas duas, e estão em larga escala na mão do Partido Socialista:

 

1) Pedir ajuda ao FMI;

2) José Sócrates demitir-se (Teixeira dos Santos e eventualmente todo o governo também seria uma boa ajuda), e os socialistas e sociais-democratas entenderem-se num bloco central.

 

Há uma terceira alternativa, que não pode ser considerada como solução e que, se nenhuma das duas referidas tiver lugar, poderá mesmo vir a concretizar-se: o regime cai. E depois, o que virá a seguir? Muito provavelmente, o caos. E sobre isto, também já aqui escrevi.

 

Por isso, haja alguém no Partido Socialista que tenha a coragem de fazer perceber a José Sócrates que, em nome do interesse nacional, tem que se demitir, o mais rapidamente possível. Dado que, de qualquer das formas, irão perder o governo nos próximos meses, socialistas, escolham: bloco central, FMI ou o regime.

Samuel de Paiva Pires às 23:57 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Que continue a sete chaves!

Qual seria hoje o seu valor, se não tivesse sido vendida uma boa parte? Uma questão a colocar ao Sr. Cavaco Silva. Esperemos que as toneladas que ainda se encontram armazenadas, continuem guardadas e que "esta gente" - todos os do Esquema vigente - não lhe consiga deitar a mão. Não tardará muito, até sermos "aconselhados" a alienar o que resta.

Nuno Castelo-Branco às 23:30 | link do post | comentar
Segunda-feira, 08.11.10

Todos de saída?

Pelo que se vê, acordos parlamentares e aprovações consequentes, somados ao optimismo quanto a benfazejas visitas que de longe chegam, não foram suficientes para impressionar os amigos agiotas. Os juros já sobem até aos 6,9%. Sempre gostaríamos de saber, como reagirá o senhor Teixeira dos Santos que ainda há dias colocava a meta dos 7%. Ou estamos perante uma velada ameaça de demissão, ou então, quem deverá sair será o senhor residente de Belém e os seus apoiantes, executivo inclusivé.

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Nuno Castelo-Branco às 19:26 | link do post | comentar
Domingo, 07.11.10

No longo prazo Portugal deixará de ser um país soberano

Ainda que formalmente, Portugal detenha um determinado grau de soberania, não só em determinados sectores da governação a derrogação de competência para a UE entregou parte da nossa soberania, como o facto de estarmos num ritmo alucinante de aprofundamento da dependência financeira em relação aos credores internacionais ameaça em larga escala a soberania portuguesa em termos materiais.

 

E ainda que, por princípio, cada Estado deva ter o orgulho de ter capacidade para enfrentar e resolver os seus próprios problemas, num sistema internacional com uma acentuada e complexa interdependência entre os vários actores esse orgulho (que a alguns poderá assistir como nacionalismo ou patriotismo, embora não o seja necessariamente, e de facto, no contexto nacional actual não o é), não pode predominar sobre a necessidade de ter uma economia viável.

 

No caso de Portugal, o sistema político-partidário aprisionou os cidadãos a gente medíocre que lentamente depredou o erário público nas últimas décadas. Agora apresentam-se como "patriotas", pretendendo disfarçar a sua incompetência e a corrupção que grassa o regime com demagógicas tiradas sobre a necessidade de salvar o país. Mas será que alguém acredita que os mesmos que nos colocaram nesta situação nos tirarão dela? Eu não acredito. E por isso mesmo, ainda que tenha muito orgulho em ser português, lamento imenso a triste situação a que chegámos, em que me parece que só com uma intervenção externa, poderá ser feito o que tem realmente de ser feito - que não passa pelo protelar da situação, desta bola de neve de endividamento externo que o péssimo Orçamento do Estado para 2011 continuará a promover. Passa, como já o indicou aqui o Carlos Santos, pela aplicação de um pacote negociado com o FMI em que se observem as mais básicas regras de consolidação das contas públicas. Só isto permitirá acabar com o regabofe. Ou então, adaptando a famosa expressão do maior amigo dos socialistas nos últimos dois anos, John Maynard Keynes, no longo prazo Portugal deixará de ser um país soberano.

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Samuel de Paiva Pires às 16:41 | link do post | comentar
Sexta-feira, 05.11.10

Notícias desencontradas

Portugal não vai precisar do FMI, diz antigo director-geral

FMI lamenta falência "quase certa" de Portugal

Poderá alguém explicar o que se passa?

Nuno Castelo-Branco às 15:58 | link do post | comentar

Para perceber a verdadeira situação do país

Ler o recentemente editado livro do Juíz Carlos Moreno, é um bom princípio. Para quem desconhece, aqui fica a entrevista de quarta-feira passada:

 

Samuel de Paiva Pires às 02:01 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Quinta-feira, 04.11.10

O FMI, ou estes

Industriosos, perseverantes, por regra sérios, poupados e frugais. São estes, a alternativa ao FMI.

Nuno Castelo-Branco às 19:06 | link do post | comentar

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